Em 2013, a Volkswagen lançou um minidocumentário narrado por Maria Alice Velasco. Chamava-se "Os Últimos Desejos da Kombi", e era exatamente o que o nome dizia: o testamento de um veículo que estava saindo de linha depois de mais de sessenta anos de estrada. A Kombi falava em primeira pessoa. Deixava seus bens, suas memórias e seus pedidos.
Quando precisei escolher uma campanha para interpretar e recriar, escolhi essa. Não pela técnica, que é impecável, mas porque quando assisti pela primeira vez eu não pensei na Volkswagen. Pensei numa Kombi bege, ano 87, que ficou estacionada na frente da casa da minha infância até 2011.
Uma campanha de despedida de um veículo utilitário conseguiu me emocionar por um objeto que não era meu, de uma marca com a qual eu não tinha relação comercial nenhuma. Isso não é sorte. É construção. A Volkswagen passou sessenta anos colocando aquele carro no meio da vida das pessoas: na escola, na obra, na feira, na mudança, na viagem. Quando chegou a hora de se despedir, não precisou inventar afeto. Só precisou ir buscar o que já estava lá.
É isso que eu levo pra qualquer briefing. Publicidade boa não fabrica emoção do zero. Ela encontra a emoção que já existe e dá a ela um lugar para acontecer. Transformar um produto em símbolo de dignidade, de trabalho e de saudade não é trabalho de um filme. É trabalho de décadas de coerência, e o filme só assina embaixo.
Cada Kombi não é apenas um carro. É um ponto de contato com várias histórias já vividas.
A PROPOSTA
Traçar um paralelo entre o adeus oficial da Kombi ao mercado brasileiro e a história da Kombi bege que pertenceu ao meu pai, transformando uma peça publicitária em um tributo ao legado familiar.
O testamento da Kombi bege
Meu pai tinha uma Kombi quando eu era criança, comprada logo depois que eu nasci. Era bege, ano 87. Seu veículo de trabalho. Ele a transformou em uma distribuidora de água, garrafões empilhados no fundo, clientes fiéis que esperavam ele toda semana. A Kombi era o ganha-pão da família.
Mas ela também era muito mais que isso. Ela fazia parte da família.
A gente viajou na Kombi. Eu fui pra escola de Kombi. A Kombi guardou meus presentes escondidos antes da data de entrega, como aquele fogãozinho que eu pedi no Dia das Crianças. Meu pai escondeu a caixa lá dentro, mas precisou me levar pro trabalho com ele um dia. Eu vi. Não entendi o que era, mas fiquei desconfiada. A Kombi se entregou.
No mercado, fazer as compras do mês era ritual. Meu pai sempre me deixava pegar o que eu quisesse. No começo, eu perguntava. Depois de um tempo, eu nem perguntava mais. O Chamyto Bolinha virou figurinha carimbada no carrinho. A Kombi levava a gente, trazia as compras e trazia a alegria.
Foi nela que eu primeiro brinquei de dirigir. Eu buzinava. Apertava o botão de ré. Ligava o rádio, que só funcionava FM, porque a Kombi era 87, e ainda era de toca-fita. Eu me sentia dona do mundo, ali no banco do motorista.
Mas a Kombi também foi meu primeiro bicho-papão.
Sempre que eu brincava nela, meus pais me avisavam: "Não brinca aí que se a Kombi desfrear ela vai embora e você vai junto." "Cuidado com o freio de mão, porque se soltar você vai embora lá pro fim da rua com a Kombi." Coisas normais de pais. E eu lembro claramente de um pesadelo que eu tive, dentro da Kombi sem freio, descendo em direção ao fim da rua, olhando pra trás, desesperada. Grande momento.
Teve também o dia que meu pai me chamou pra ir na Leroy Merlin comprar materiais para a reforma. Ele não esperou eu responder. Saiu com a Kombi barulhenta sem mim. Chorei muito naquele dia. Porque ser deixada pra trás pela Kombi era como ser esquecida pelo meu pai.
Em 2011, meu pai teve que dizer adeus à Kombi dele. Três anos antes da Kombi dizer seu adeus a todos nós brasileiros.
Ele estava se aposentando oficialmente e queria o dinheiro da Kombi para construir a casa que a gente comprou em Americana. Vendemos a Kombi para um conhecido que trabalhava fazendo feiras em São Paulo. Nos mudamos de lá para Americana.
E onze anos depois, meu pai se foi. Como a Kombi.
E assim como ela, ele deixou seu legado e suas memórias com a nossa família, e com todos que um dia conheceram ele e a Kombi bege 87.
E toda vez que vejo uma Kombi, ou tenho a sorte de entrar em uma, eu lembro dele me levando pra algum lugar.
Beatriz Morais · @_beamors